A lista da Sbeq de morcegos do Brasil e suas mensagens subliminares

4 09 2014

Após pouco mais de três anos de pesquisas bibliográficas e discussões metodológicas, taxonômicas e nomenclaturais, o Comitê da Lista de Morcegos do Brasil (CLMB) apresenta o artigo Checklist of Brazilian bats, with comments on original records, publicado essa semana na revista Check List (Nogueira et al. 2014). O CLMB reconheceu 178 espécies, 68 gêneros e 9 famílias de morcegos com ocorrências confirmadas para o Brasil—a 3ª maior riqueza de espécies do planeta, ultrapassada apenas pela Indonésia (≈ 220 spp.) e Colômbia (≈ 200 spp.). Essa lista vem acompanhada de observações taxonômicas e nomenclaturais, algumas inéditas.

A primeira lista de morcegos do Brasil inclui 40 espécies e foi apresentada há mais de um século por Emílio Goeldi (Goeldi 1893). Ao longo do século 20, várias outras listas vieram compilando novos registros para o Brasil. A lista proposta pela Sbeq se destaca das demais por sua metodologia e extensiva pesquisa bibliográfica durante sua confecção. Até então, as listas eram, em sua maioria, compilações de registros de literatura, sem informação sobre a fonte do registro e sem qualquer questionamento da validade dos mesmos—exceção para Tavares et al. (2008), que apresentaram uma lista com notas sobre a distribuição dos táxons (incluindo referências para os registros de ocorrência) e comentários taxonômicos.

O CLMB usou como pontos de partida as listas de espécies de morcegos de Tavares et al. (2008) e Peracchi et al. (2011) para a relação dos táxons e registros de ocorrência; e os arranjos taxonômicos e a nomenclatura do livro Mammals of South America (Gardner 2008) para a organização taxonômica e grafias dos nomes dos táxons, seus autores e datas de publicação. A etapa seguinte envolveu a incorporação de resultados de pesquisas taxonômicas posteriores às obras que foram usadas como pontos de partida (o que levou à introdução de novos nomes e consequente exclusão de alguns outros da lista) e a verificação da nomenclatura dos táxons. A partir daí, foi feito um levantamento da origem de cada registro e da existência de espécimes-testemunho associados, depositados em coleções biológicas—um requisito que o CLMB considerou essencial para a validade do registro. Durante esse processo, o Comitê se deparou com inconsistências nomenclaturais que muitas vezes só puderam ser resolvidas com meticuloso estudo da história nomenclatural do táxon. Em alguns casos, mesmo após cuidadosas análises, conclusões objetivas não puderam ser obtidas e os impasses foram decididos por votação.

Após finalizadas as análises, foram confeccionadas 3 tabelas. A primeira tabela (a lista oficial [178 spp.]) traz a relação dos táxons com ocorrência testável (= vouchers) e anotação do registro mais antigo que possui indicação de voucher. A segunda tabela (espécies de ocorrência não confirmada ou duvidosa [10 spp.]) traz as espécies reportadas para o Brasil sem vouchers em coleções; espécies cuja validade ainda é incerta; e espécies que sofreram mudanças em suas distribuições após revisões taxonômicas, mas cujas amostras de populações brasileiras não foram examinadas. A terceira tabela (registros errôneos [6 spp.]) traz as espécies cuja ocorrência no país foi refutada após exame de material-testemunho.

Esse trabalho, delineado de forma muito inteligente e criteriosa pelo coordenador do CLMB, reforça a importância de vouchers como prova testável do resultado de pesquisas envolvendo levantamentos, descrições de espécies e ampliações de distribuições. Para essas pesquisas com pequenos mamíferos (morcegos e a maioria dos roedores e marsupiais), fotografias, cariótipos, amostras de tecido para DNA barcoding, registros sonoros e qualquer outro “método alternativo” não substituem nem substituirão, pelo menos nas próximas décadas, espécimes-testemunho depositados em coleções científicas, pois esses métodos são apenas evidências complementares. Inventários e registros de ampliação de distribuição de pequenos mamíferos que não estão baseados em vouchers não permitem que outros pesquisadores testem seus resultados (= verifiquem a acurácia das identificações). Como cientista, entendo que a pergunta direciona o método, não o contrário; se o método para responder à questão não é adequado ou o resultado não é testável, para que serve essa pesquisa? Para enfatizar ainda mais a importância de vouchers, um recente estudo mostrou que entre a coleta e a descoberta e descrição de um novo táxon passam-se em média 21 anos (resultados agrupando representantes de diferentes reinos [Fontaine et al. 2012]). Usando como exemplos 5 táxons que descrevi recentemente: entre a coleta dos espécimes mais antigos e suas descrições formais, passaram-se em média 62 anos (111 anos para M. lavali; possivelmente 69 anos para M. izecksohni; 52 anos para M. diminutus; 48 anos para M. handleyi; 29 anos para L. peracchii). Esses longos períodos não parecem ser exceções, pois atualmente venho trabalhando na descrição de um novo táxon cujos indivíduos mais antigos em coleções estão nas gavetas de museus desde o início do século 20. Esse longo período entre a coleta e o reconhecimento e descrição formal de um táxon também não é uma peculiaridade de Chiroptera; dentro de outros grupos de mamíferos podem se passar décadas e até séculos antes que uma espécie seja reconhecida e descrita. Como exemplo, o olinguito (Bassaricyon neblina Helgen et al., 2013 [Carnivora, Procyonidae]) ficou por pelo menos 90 anos nas gavetas de museus até sua descrição formal.

Listas de fauna ainda são extremamente necessárias em países megadiversos como o Brasil. Em nosso país, apesar de sabermos que abrigamos alguns dos principais hotspots de diversidade do planeta (veja Myers et al. 2000, Ceballos & Ehrlich 2006), há ainda diversas lacunas de conhecimento sobre nossa biodiversidade, e as listas são o ponto de partida para diversas perguntas ainda não respondidas. Centenas de novas espécies em diferentes grupos zoológicos recheiam revistas taxonômicas todos os anos, em um ritmo que aparentemente vem aumentando pelo uso de novas ferramentas associadas às pesquisas de campo e coleções. Entretanto, esse ritmo não é alto o suficiente para que todas as espécies (ou mesmo a maioria delas) sejam descritas antes de estarem extintas. Muitas sumirão antes mesmo que possamos salvá-las em coleções biológicas. Por outro lado, dentre as espécies “conhecidas”, quantas são realmente conhecidas? O que sabemos sobre dieta, reprodução, demografia, variação geográfica/altitudinal, fluxo populacional, metapopulações, zoonoses associadas, interações interespecíficas etc. para a maioria das espécies que ocorrem em nossos jardins ou em áreas naturais próximas às cidades? Indo um pouco mais a fundo, por que morcegos podem ser os principais hospedeiros de agentes zoonóticos dentre os mamíferos (veja Luis et al. 2013)? Que características comuns há entre os sistemas imunológicos deles e o nosso? Pegando alguns exemplos de morcegos neotropicais, afirmo que nem mesmo Artibeus lituratus, Carollia perspicillata, Sturnira lilium, Molossus molossus e Platyrrhinus lineatus são espécies verdadeiramente conhecidas. Assim como o samba do Rio de Janeiro corre o risco de perder seus cuiqueiros em um futuro próximo, por pura falta de interesse da nova geração no instrumento, a Biologia poderá perder seus naturalistas, por uma tendência a trabalhos que usem os “cutting edges da ciência” para serem publicados em revistas de alto impacto. Apesar de ser “apenas uma lista”, o Checklist of Brazilian bats, with comments on original records é um dos trabalhos que mais me deram prazer em toda a minha carreira de biólogo e taxônomo. Agradeço ao coordenador o convite para me juntar a essa excelente equipe e espero que novas listas continuem sendo produzidas pela Sbeq e outras sociedades. Assim, as peças do quebra-cabeças da biodiversidade brasileira serão, aos poucos, postas em seus devidos lugares. Por fim, é importante lembrar que essa lista não encerra qualquer discussão sobre os morcegos do Brasil, ela é apenas um novo ponto de partida para avançarmos no conhecimento de nossa fauna.

Agradecimento

Aos Drs. Marcelo Rodrigues Nogueira (UENF), Isaac Passos de Lima (UFRRJ), Valéria da Cunha Tavares (UFMG), Luis Falcão (UFMG) e Ligiane Moras (UFMG) pelos comentários a versões prévia deste texto.

Referências

Ceballos G, PR Ehrlich. 2006. Global mammal distributions, biodiversity hotspots, and conservation. Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America 103:19374–19379.

Fontaine, B, A Perrard, P Bouchet. 21 years of shelf life between discovery and description of new species. Current Biology 22:R943–944.

Gardner AL (org.). Mammals of South America: marsupials, xenarthrans, shrews, and bats, Volume 1. Chicago: University of Chicago Press. [Data na ficha catalográfica 2007; publicado em 31 de Março de 2008.]

Goeldi EA. 1893. Os mammiferos do Brasil. Rio de Janeiro: Livraria Clássica de Alves & Co. 182 pp.

Helgen KM, et al. Taxonomic revision of the olingos (Bassaricyon), with description of a new species, the olinguito. Zookeys 324:1–83.

Luis AD, et al. 2013. A comparison of bats and rodents as reservoirs of zoonotic viruses: are bats special? Proceedings of the Royal Society B, Biological Sciences 280:1–9.

Myers N, RA Mittermeier, CG Mittermeier, GAB da Fonseca, J Kent. 2000. Biodiversity hotspots for conservation priorities. Nature 403:853–858.

Nogueira MR, IP de Lima, R Moratelli, VC Tavares, R Gregorin, AL Peracchi. 2014. Checklist of Brazilian bats, with comments on original records. Check List 10:808–821.

Peracchi AL, IP de Lima, MR Nogueira, H Ortêncio-Filho. 2011. Ordem Chiroptera, pp. 155–234 in (NR Reis, AL Peracchi, WA Pedro, IP de Lima [orgs.]). Mamíferos do Brasil. 2ª edição. Londrina: N. R. Reis.

Tavares VC, R Gregorin, AL Peracchi. 2008. Sistemática: A Diversidade de Morcegos no Brasil, pp. 25–58 in (SM Pacheco, RV Marques, CEL Esbérard [orgs.]) Morcegos no Brasil: biologia, sistemática, ecologia e conservação. Porto Alegre: Armazém Digital.

 

Ricardo Moratelli
Fundação Oswaldo Cruz

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2 responses

6 10 2014
Thais

Boa noite Ricardo Moratelli!! Estou escrevendo um artigo e se vc pudesse gostaria que me disponibilizasse o nome do artigo que fala sobre a riqueza de espécies encontrada na Indonésia… Gostaria de citar isso em um trabalho que estou escrevendo mas não estou achando esse artigo em lugar nenhum! Atenciosamente!
Thais Regina Rosada

7 10 2014
Ricardo Moratelli

Prezada Thais, a referência é: Solari et al. 2013. Riqueza, endemismo y conservacion de los mamiferos de Colombia. Mastozoologia Neotropical 20(2):301-365.

Foram os Drs. Marcelo Rodrigues Nogueira e Isaac Passos de Lima que chamaram minha atenção para esse trabalho do Dr. Sergio Solari e colegas. Até então, acreditava que a Colômbia guardava a maior riqueza de espécies de morcegos. Os autores citam o capitulo da Dra. Nancy Simmons no livro Mammal Species of the World (Wilson e Reeder 2005) como fonte. Daí, concluo que eles contaram o número de registros para a Indonésia, pois até onde me recordo, no capitulo não há qualquer referência a diversidade de espécies.

Espero ter ajudado. Atenciosamente, rm




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